O Retrato de Dorian Grey foi escrito em 1890 pelo escritor irlandês Oscar Wilde, tornando-se numa das suas obras mais populares. Retratando os vícios da época vitoriana, a obra foi criticada na altura por ser um atentado à decência moral devido aos seus temas de sexo, hedonismo e alguns toques de homoerotismo devido à descrição de Dorian por Wilde.Esta obra foi adaptada várias vezes no cinema, e a personagem de Dorian Grey tem entrada em algumas outras obras devido ao estatuto da obra em domínio público.
Esta crítica será feita de um modo diferente. SeleneBlack, ao contrário de mim, leu o livro original e irá apontar o seu ponto de vista como fã da obra em relação à adaptação, e eu estarei a dar o meu ponto de vista como espectador normal. E como vamos entrar em bastante detalhe sobre o filme e a obra:
SPOILER ALERT
Sinopse
Durante os finais do séc. XIX, o jovem ingénuo Dorian Gray regressa a Londres para tomar a sua casa e herança substancial devido ao falecimento do seu avô. Durante um evento de caridade encontra o pintor Basil Howard, e pede ao artista que o pinte.
Mais tarde conhece Lord Henry Wotton, hedonista, que o convence a tomar as rédeas da sua vida e perder-se em prazeres e emoções. Eventualmente Dorian começa a descobrir que o seu retrato envelhece e degrada-se ao contrário dele, e decide perder-se cada vez mais nos seus prazeres, independentemente das consequências que começam a apanhá-lo.
Dorian
Xvin: O filme começa com Dorian a cometer homicídio, uma cena bastante efetiva que demonstra o tipo de pessoa ele se irá tornar. Esta cena inclui Dorian a cheirar o cachecol sangrento da vitima num modo quase em transe, antes de deitar o cadáver para o rio.O filme depois regressa para o momento do chegada de Dorian a Londres, onde vemos um Dorian bastante ingénuo e inocente que tenta apenas fazer conhecidos e enquadrar-se na elite da época. Durante esta altura, ele conhece o pintor Basil Howard, e pede-lhe um retrato, que se tornará no fadado retrato que envelhece e se degrada - ao contrário dele.
A inocência morre momentos após conhecer o hedonista Lorde Henry Wotton, que lentamente tenta e corrompe o jovem, incentivando-o para experimentar todo o tipo de sexo e drogas que puder. A evolução de Dorian de inocente a besta é bastante interessante e bem-feita, e realmente começa a acelerar após Dorian aperceber-se dos efeitos do quadro. A crueldade e irreverência dele tornam-se tão tóxicas, que Basil praticamente não o reconhece, e a descoberta do quadro por Basil levam a que Dorian o mate.
Após o funeral, Dorian parte para ver o mundo e … muda… Não temos direito a perceber como e de que forma, mas Dorian começa a perder o gosto pela vida e torna-se cínico, mas por outro lado torna-se um pouco mais amigável e simpático com as pessoas. Esta reviravolta da personagem vem do nada, e é triste que não possamos perceber como ele mudou na sua viagem.
Dorian é interpretado por Ben Barnes, conhecido por interpretar o Príncipe Caspian n’As Crónicas de Narnia. Barnes realmente distingue-se na personagem, evolução é mais vista como um erro de direção.demonstrando bem a sua evolução de um modo genuíno e realmente faz com que Dorian se torne numa pessoa viva, e aquele problema da falta de
SeleneBlack: No início da história Dorian é um jovem – com cerca de 17 anos – inocente, deslumbrado com o mundo londrino. Mostra alguma surpresa pelo facto de Basil o achar belo o suficiente para fazer de si a sua musa. Tudo muda, quando o tímido jovem, é apresentado a Henry Wotton – que lhe dá a conhecer os prazeres e decadência da sociedade londrina. São as opiniões do mesmo que o levam a – sem sequer se aperceber – vender a alma. No início Dorian é uma criatura um tanto vã, mas sensível ao que o rodeia, tudo muda quando se apercebe de que tudo o que “sofre” e vive não é retratado no seu corpo e face, mas sim, no do retrato – que depressa esconde dos olhos alheios. Ao longo do enredo, torna-se uma personagem algo distorcida e devassa, que tem prazer ao olhar para o quadro e ver como a devassidão da sua vida afeta o mesmo, enquanto a sua aparência bela e jovem continua inalterada. No que diz respeito á caracterização do personagem, o filme diverge do livro: neste, Dorian é pálido, de cabelos loiros aos cachos e olhos azuis – tal e qual as imagens que temos dos amorosos querubins. No entanto, a sua versão morena e máscula, presente no filme, não destoa no papel que representa.
Henry
Xvin: Lorde Henry Botton é um homem honrado e casado… tecnicamente… Mas na verdade, ele delicia-se com sexo casual, álcool e até algumas drogas. Quando Dorian e ele se cruzam, Henry rapidamente se torna no ídolo do jovem, começando até a imitar algumas frases e maneirismos dele.É irónico de como Henry começa a odiá-lo pelo seu estilo de vida, especialmente quando o vê tão jovem e com a filha. Achei bastante graça de como ele se atirava a qualquer mulher que pudesse sem considerar consequências e agora vê esse tipo de estilo de vida a bater-lhe à porta.
Colin Firth, como seria de esperar, acerta em cheio neste papel. No início do filme, na cena em que Dorian inadvertidamente vende a alma, eu cheguei a achar que o grande segredo do filme seria que Henry era o próprio Diabo, ou algo do género. Isto porque ele realmente age como seria de esperar do Príncipe da Escuridão, tentador e sedutor. A forma de como ele fala realmente ajuda a vender esta ideia, tornando-o num Satanás metafórico a quem Dorian vende a alma.
SeleneBlack: Henry é uma figura de discórdia nesta história. É o típico socialite que tem a opinião que a classe alta tem direito a fazer tudo sem olhar a consequências. É ele o responsável por aquilo em que Dorian se torna, pois quando o conheceu em jovem, manipulou-o dando-lhe a conhecer tudo o que o dinheiro podia comprar.
Ao descrever a vida de Henry, Oscar Wilde, dotou-o de uma companheira – Victoria -, uma mulher extravagante e cheia de vida que eventualmente se cansa do estilo de vida vazio presente no seu casamento. Ao contrário do que acontece no filme – morte pré-divórcio – Victoria chega a divorciar-se de Henry e a ter o seu final feliz.
Basil
Xvin: Se Henry é o diabo, Basil é o anjo na mente de Dorian. Este artista serve como, ou pelo menos tenta ser, a consciência do jovem aristocrata. Quando eles se encontram e se vê Dorian a posar para o quadro, nota-se uma atração de Basil por Dorian, subtil mas está lá.
É mesmo de quebrar o coração como Basil começa a ter desgosto por Dorian, percebendo como Henry o destrói inteiramente, e para adicionar à tragédia, vemos a repetição da cena de homicídio, desta vez confirmada a vítima como Basil. A morte dele simboliza a morte definitiva da consciência de Dorian… ou pelo menos seria esse o significado até à sua viagem.
Gostei bastante de Ben Chaplin neste papel. Ele realmente demonstra o quanto ele tenta trazer Dorian de volta à decência e moralidade, e o quanto ele fica desiludido ao falhar.
SeleneBlack: Basil é deslumbrado pela beleza de Dorian quando este primeiro chega a Londres – de aspeto querúbico e inocente, deslumbrado pelo novo mundo que o rodeia. Dorian torna-se na sua musa e na sua obsessão e ninguém sofre mais que ele, quando após conhecer Henry, Dorian muda tão drástica e avassaladoramente.
Fica chocado quando a sua grande obra é escondida dos olhos de todos e anos mais tarde exige a Dorian que o deixe apresentar em Paris a obra-prima.
Ao contrário do que acontece no filme, a paixão que Basil sente por Dorian nunca chega a realizar-se, e, quando se apercebe que o quadro que Dorian lhe mostra é o mesmo que pintou fica desvairado e em choque, o que leva ao seu misterioso desaparecimento. Aqui os acontecimentos divergem também, pois no livro não existem quaisquer restos ou pertences de Basil a serem encontrados – Dorian arranja maneira de se desfazer do corpo através de químicos dos quais resta apenas pó e os pertences de que Basil se fazia acompanhar são inteiramente queimados.
Sybil e James
Xvin: Sybil é uma atriz num teatro pequeno que cativa Dorian. Após seguir o conselho de Henry, ele reencontra-a a atuar e consegue criar uma relação amorosa com a jovem e até planeava casar-se após dormir com ela. Mas as maquinações de Henry levam a que essa paixão morra depressa, e o desgosto de Sybil leva-a ao suicídio.O irmão de Sybil, James, traz a notícia a Dorian, o que o deixa devastado. Quando este tenta falar com James, o irmão tenta matá-lo e rapidamente é enviado para o manicómio por aliados de Henry. Este confronto é a demonstração que ações têm consequências, mas Henry consegue convencer Dorian a ignorá-las. James confronta Dorian quando este regressa anos depois, apesar de Dorian o conseguir enganar devido à sua aparência jovem. Mas após Dorian deixar a sua caixa de cigarros ao fugir, James tenta novamente matá-lo no sistema metropolitano, o que o leva a ser atropelado por um comboio passante.
Sybil e James são interpretados por Rachel Hurd-Wood e Johnny Harris. Rachel consegue fazer um papel razoável no papel de Sybil, demonstrando a usa inocência e ingenuidade até ao seu momento de desgosto. Uns parabéns vão para Harris no papel de James que demonstra como a morte da irmã (e subsequentes tratamentos psiquiátricos) o destruíram e de como a sua obsessão está a dar cabo do resto que James era. Ele não parece demonstrar ódio mas simplesmente uma necessidade desesperada de matar Dorian e Harris realmente vende o desespero de James quando vai atrás dele nos túneis.SeleneBlack: Sybil Vane é o primeiro amor de Dorian. Trabalha como atriz juntamente com a sua mãe num teatro pequeno de Londres devido ás dividas da família. É uma criaturazinha vã e cheia de ilusões. Apesar de – na opinião de Dorian – ser uma excelente atriz, quando experimenta o verdadeiro amor não consegue emulá-lo. Ao ver a sua perda de paixão e talento pela arte, o amor de Dorian por Sybil evapora-se e a mesma suicida-se. O seu irmão culpa Dorian, cujo nome nunca ninguém veio a saber, nem a própria Sybil. 20 anos passados James Vane, irmão de Sybil, regressa a Londres para se vingar de Dorian, mas é enganado pelo mesmo devido á sua aparência de adolescente. Quando finalmente descobre a realidade começa a segui-lo e é morto acidentalmente. Dorian escapa ao destino uma vez mais.
O Desenvolvimento do Enredo
Xvin: O grande problema deste filme é ritmo. Este filme acelera e desacelera demasiado, levando a uma distorção de fluidez de história.Por exemplo: Dorian chega a Londres e fala com o seu Mordomo. Cena a seguir, Dorian está em casa a ver a sua antiga moradia, e vai ver o piano. Mudamos imediatamente para um concerto de caridade para os órfãos onde Dorian está a tocar e conhece Basil, e troca algumas palavras com ele. Cena imediatamente a seguir, Basil está a pintar Dorian, sem vermos o pedido e nem como eles se tornaram tão próximos visto que Dorian afirma que eles já estavam nisto à dias.
Isto faz-me questionar se o filme não foi originalmente planeado como uma minissérie, visto que parece que temos partes que foram cortadas para caber nas duas horas de filme.
Existem cenas bastante engraçadas para denotar o hedonismo e imoralidade de Dorian, como a da mãe e filha: Dorian seduz a jovem filha de um Lorde e após ser descoberto a vestir-se pela mãe, ele imediatamente a leva para a cama logo a seguir. Isto é filmado de uma forma onde a imoralidade desta cena só assenta quando Basil o vê de volta com Henry.
Depois temos vários flashes de festas, prazeres, mais festas, sadomasoquismo e mais festas até ao assassinato de Basil, que leva a que Dorian saia de Londres para conhecer o mundo. E aí temos uma evolução súbita de Dorian. De repente, quando regressa ele está mais cínico e vazio e não percebemos como isso aconteceu. Aparentemente é só suposto aceitarmos.
Dorian começa a ser invejado/odiado pela sua juventude, e muitos (Henry incluído) começam a achá-lo anormal. E depois temos a entrada de Emily Wotton (Rebecca Hall), filha de Henry. Eu assim que vi que Henry teve uma filha, eu soube logo que Dorian ia atrás dela, e os dois se apaixonariam. Previsível, este enredo. Isto leva a que Dorian tente confrontar os seus demónios para ser digno de Emily e decide ir para Nova Iorque com ela para começar de novo.
SeleneBlack: O enredo não diverge em grande coisa até á altura em que, no filme, Dorian viaja. Na obra Dorian permanece em Londres e todos aqueles que no filme se mostram surpreendidos por o ver tao jovem, acompanham a sua eterna juventude, havendo apenas alguns comentários em tom jocoso. A meu ver, os pontos do enredo que divergem bastante são a “salvação” de Dorian, a sua morte e a cena final, que no livro é inexistente.
Na obra de Oscar Wilde, Emily Wotton não existe. O que leva á mudança de Dorian é a sua própria consciência daquilo em que se tornou. Se bem que, mesmo quando tende a ser bondoso Dorian falha redondamente – este facto e a sua culpa levará ao desfecho final do livro.
Clímax da História
Xvin: Henry começa a investigar fotos antigas e deduz que a juventude impossível de Dorian tem algo a ver com o quadro. Durante a festa de despedida de Dorian, Henry deixa-o saber por mensagem críptica (enviando fotos antigas à festa) que ele sabe do segredo dele.
Dorian corre para casa, e é confrontado por Henry que revela o quadro mostrando não um monstro corrompido, mas um homem velho, demonstrando que Dorian se redimiu com o amor de Emily. Mas Henry consegue queimar o quadro e deixar Dorian preso enquanto o fogo começa a pegar. Emily surge do nada, seguindo o seu amante para descobrir o que se passa e quando ela o tenta salvar, Henry arrasta-a para fora, apesar de Dorian conseguir professar o seu amor por ela. Dorian pega numa espada e espeta o retrato, começando a transformr-se na idade do quadro,e Dorian ataca-o de novo.
Na cena seguinte temos Henry a tentar falar com Emily, que obviamente não quer nada com ele. Henry vai para o seu sótão onde tem o retrato de Dorian, revertido à imagem original. O filme acaba com um último vislumbre do quadro, deixando ambíguo se a alma de Dorian está presa ou não no quadro.
SeleneBlack: Enquanto no filme, Dorian é salvo pelo amor, no livro o que pesa é a sua consciência, desde o suicídio de Sybil, ao assassinato de Basil e ao encobrimento do mesmo, até todas as vidas que tocou e destruiu ao longo daqueles 20 anos. A sua morte vem quando começa a associar ao quadro a podridão da sua alma e todos os seus atos vis. Tomado pelo desespero apunhala a obra: ao fazê-lo, há uma troca – o quadro retorna a sua aparência juvenil de mancebo de 17 anos e o próprio Dorian morre tomando o seu verdadeiro aspeto – o de um homem velho e doente. Diz Oscar Wilde: “Quando entraram, encontraram, pendurado na parede, um magnifico retrato do patrão como o tinham visto da última vez, em todo o esplendor da sua delicada juventude e beleza. Jazendo no chão estava um homem morto, de casaca, com uma faca no coração. Um homem mirrado, engelhado, com uma cara hedionda. Só depois de lhe examinarem os anéis é que descobriram quem era.”
Aspetos Técnicos
Apesar da péssima edição e ritmo do filme, este filme tem excelente cinematografia, atuação e produção de som. Os fundos e cenários parecem autênticos e se houve ecrã verde nunca reparei nele.A maquilhagem na parte final está soberba, demonstrando idade avançada bastante convincentemente em todos os atores, especialmente Firth que realmente parece ter cerca de 60 anos.
O quadro é um pouco misto: apesar de estar excelentemente animado, a animação é um pouco estranha e um pouco fora-de-sitio no filme. Gostei da evolução periódica, onde vamos dos finais dos séc. XIX com carroças e cavalos, aos inícios do séc. XX onde carros se tornaram abundantes, e estes últimos estão com excelente aspeto.
Os atores fazem todos um excelente trabalho. Desde Ben Barnes, Colin Firth, Ben Chaplin, às poucas cenas em que Michael Culkin aparece e o pequeno papel de Rebecca Hall, o elenco e os argumentistas conseguem criar um mundo bastante real, quadro místico e imortalidade à parte.
Comentários Finais (Sessão Dupla)
Xvin: Apesar da excelente produção e grandes interpretações pelos atores, Dorian Grey é esmagado pelo seu ritmo. A história torna-se demasiado previsível e tediosa, sem contar com partes do filme que parecem ter sido cortadas. Se fosse uma minissérie talvez o filme conseguisse ser melhor mas como está, acho que se forem fãs do género de filme ou da série Penny Dreadfull (que usa a personagem de Dorian Grey) poderão apreciar o filme.SeleneBlack: Neste caso, é-me extremamente difícil dizer quais das duas produções – escrita ou cinematográfica – será a melhor. Por um lado gostei bastante do filme, as personagens foram bem escolhidas, a imagem está lindíssima, tal como a montagem; No entanto, a obra – embora mais parada, temos que ver que foi escrita no final do século XIX – também tem partes muito cativantes: a psicologia dos personagens é mais clara, bem como o caminho de auto-ódio e auto-destruição de Dorian. Desta vez – única até agora – aconselharia a leitura do livro e depois a visualização desta versão do filme. A meu ver, a única coisa que falha é mesmo Hollywood querer salvar todas as personagens do mundo através de uma relação romântico-amorosa, quando seria, talvez, mais cativante elas salvarem-se a elas próprias.
Avaliação final
BUCKET LIST
Se o perdeu no cinema, ponha na lista dos filmes quem tem que ver. Estes filmes poderão ter algo que lhe irá chamar à atenção, seja uma interpretação, o enredo, o tema, ou simplesmente grandes cenas, sejam dramáticas, cómicas ou de ação.






















